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Tecnologia nos Berçários:
Em algumas espécies de formigas, como as saúvas, os berçários são
freqüentados também pelas cortadeiras, operárias especializadas em
picar as folhinhas que as coletoras trazem. As maiores delas
dividem, com as mandíbulas-tesouras, os grandes pedaços de folha em
várias pequenas partes. Daí chega uma formiga menor, que corta cada
pedaço em pedacinhos. E assim por diante, como se fossem as enzimas
do nosso sistema digestivo quebrando os alimentos em pequenos
componentes. Uma perfeita linha de (des)montagem. Até que sobram
fragmentos vegetais tão minúsculos que podem ser absorvidos pelas
larvas.
As folhas picotadas servem também de adubo para os fungos que
crescem nos berçários. "As formigas podem ser consideradas as
verdadeiras inventoras da agricultura", afirma a ecóloga Flávia
Medeiros, especialista em comportamento de formigas da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). Não é exagero. Há operárias no
formigueiro que cultivam uma horta de fungos e depois colhem para
alimentar a colônia inteira.
Comida é importante, mas não é tudo. Para que um formigueiro
funcione, vários tipos de formigas precisam trabalhar, cada uma
fazendo o que sabe sem ambicionar uma promoção ou invejar o emprego
alheio. Há, por exemplo, as faxineiras, que alegremente levam cada
resíduo de comida ou de larvas para algum porão vazio nas fronteiras
do formigueiro, onde as bactérias que o lixo atrai não são ameaça
para ninguém. Outras limitam-se à tarefa burocrática de organizar
estoques de comida, cuidando para que não falte nada e decidindo o
que deve ser consumido antes.
Há algumas ainda mais especializadas: passam a vida a quebrar
sementes ou a cavar túneis. "Sozinhas as formigas não são nada. Sua
sociedade é o exemplo perfeito de como várias partes simples podem
executar tarefas elaboradas juntas", afirma Deborah, que gosta de
comparar o formigueiro a um cérebro. Em ambos os casos, um
componente isolado - formiga ou neurônio - é incapaz de grandes
feitos. Mas o conjunto impressiona pela eficiência e pela
complexidade.
O engraçado é que uma única formiga - assim como um único neurônio -
não faz idéia de que seja parte de algo tão complicado. "Essa é uma
das mais recentes e incríveis descobertas sobre as colônias", diz
Deborah. "As formigas só percebem as companheiras mais próximas. Nem
sabem o tamanho de seu formigueiro." Ou seja, uma cidadã do maior
formigueiro do mundo, que fica na ilha de Hokaido, Japão, e abriga,
em seus três quilômetros quadrados, 300 milhões de operárias e 80
000 rainhas, nem imagina que sua casa é diferente de uma colônia do
gênero amblyotoni, a menor do mundo com apenas 12 habitantes,
encontrada na Austrália.
E NO BRASIL......
E, já que estamos falando de recordes, toque o hino: a maior formiga
do planeta é brasileira. Trata-se da tocandira, que habita o Estado
de Goiás. Ela mede 4 centímetros e tem uma ferroada tão doída que
virou rito de passagem para índios locais: "Quando o menino se
tornava um guerreiro, era obrigado a colocar a mão numa luva cheia
de tocandiras", diz Ana Eugênia.
Mas tamanho nem sempre é documento. Outra formiga daqui da terrinha,
a minúscula lavapé, de 2 milímetros, está entre as mais
bem-sucedidas do mundo. Tanto que acabou desembarcando na América do
Norte, de carona em algum navio brasileiro na década de 30, e
transformou-se numa das mais terríveis pragas dos Estados Unidos,
onde não tem inimigos naturais.
Uma das
razões de tanto sucesso é a implacável estratégia militar das
lavapés. Elas invadem as colônias inimigas e vão espirrando ácido
fórmico, um veneno que já matou muita gente de alergia, nos olhos
das inimigas. Quando encontram a rainha, seguram-na com a boca e
cravam o ferrão no abdome, pela lateral da carcaça. Vencida a
batalha, as soldadas copiam o cheiro da rainha morta e, em pouco
tempo, são aceitas pelas formigas órfãs. Os biólogos chamam as
colônias conquistadas de "escravas".
Fonte: Revista Super Interessante
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